domingo, fevereiro 19, 2012

A revolta das mulheres feias

Um telefonema. Com um telefonema, iniciou-se o processo de indignação das mulheres feias de Jutibaia, cidadezinha do interior de um estado de que ninguém se lembrava. Eram trinta mil habitantes – ou três mil duzentas e doze feias. As feiúras eram de tipos e graus variados, mais escondidas ou mais gritantes, de dar pena ou de assustar. Mas, em comum, eram feiúras.

Sempre havia um moço sozinho que tentava encontrar alguma beleza em uma daquelas mulheres feias. E sempre havia uma que tentava passar para o time das bonitas, fosse emagrecendo, fosse arrumando o cabelo, fosse se maquiando, fosse emagrecendo, arrumando o cabelo e se maquiando. Mesmo assim, não havia como negar. Os moços sozinhos sabiam. As próprias feias arrumadas sabiam.

Eram feias.

– Eu não agüento mais – disse Inês ao telefone. Estava sentada na bela poltrona da sala, que destacava ainda mais sua feiúra. Não era gorda, não era nariguda – mas era feia como um todo.

– O que você não agüenta mais, criatura? – perguntou Mara, que chamava qualquer pessoa de “criatura”, sem preconceito.

Inês respirou fundo.

– Hoje, descobri, com toda a certeza do mundo, que sou feia. E escolhi você para desabafar porque você também é feia. Nós duas somos feias, por mais que a gente se esforce.

Silêncio.

– Eu não descobri nada – disse Mara, por fim. O coração batendo forte. Era como se alguém estivesse lendo seu diário em voz alta. – Eu não descobri nada.

– Escute! Você está perdendo seu tempo. Eu estou aqui, cheia de idéias para compartilhar com outras mulheres da nossa condição. Não tente negar. Você faz parte desse time.

Mais silêncio. Mara tinha se sentido sozinha a vida toda. A última a ser escolhida na aula de educação física. A única a não receber assobios em frente às obras de construção. A última a beijar na boca – só aos dezoito anos, depois de pagar o vizinho. Gostava da idéia de fazer parte de um time. Mas queria fazer parte daquele time?

– Eu tenho um cabelo bonito – Mara respondeu, balbuciando.

– Só realça a sua feiúra. Quem olha você de costas, sentada no ônibus, fica com uma esperança ao ver seu cabelo! Eu, pelo menos, já tenho o cabelo feio. Não desiludo ninguém.

– Vovó dizia que tenho pés elegantes – disse Mara, triunfante.

– Ótimo. Ande de ponta cabeça e cubra sua cara com um belo par de sapatos.

Mara desligou o telefone. Inês ligou de volta. Sabia que estava sendo cruel. Mas precisava. Tinha idéias arrojadas na cabeça e meias palavras não iriam ajudar a concretizá-las.

– Inês, você está com baixa auto-estima e resolveu descontar em mim, só pode ser. Você precisa de terapia.

– E você precisa de um espelho.

– Eu não sou tão feia assim.

– Assuma, Mara. Chega de se esconder. Ou de tentar melhorar. Você não merece passar o dia tentando vestir uma roupa que te deixe melhorzinha, torcendo para mexerem com você na rua e fazendo unha no salão como se isso fosse melhorar alguma coisa.

Inês sabia do que estava falando. Tinha passado a vida fazendo o mesmo. Comprava roupa como se cada peça bonita fosse um sopro de esperança. Passava o dia sonhando acordada se ouvia um assobio – alguns eram para outra mulher que passava na mesma calçada, outros eram para algum cachorro, mas vira e mexe ouvia um que era para ela, e como ela ficava feliz! Claro, às vezes acontecia de ouvir o autor do assobio comentando com os colegas que tinha feito a boa ação do dia, mas ela fazia questão fingir para si mesma que não tinha entendido – não era boa com piadas, não tinha entendido o que ele queria dizer com boa ação, vamos sorrir, que é melhor. As revistas femininas confundiam as emoções de Inês. Em algumas ocasiões, gostava de ver os rostos perfeitos que estampavam aquelas páginas. Era como se, enquanto folheava as revistas, fizesse parte daquele universo – e, comprando o batom com ponta esférica hidratante do anúncio, ficaria ainda mais linda. Gostava de ler entrevistas com famosas bonitas. A perguntas como “Qual é seu segredo de beleza?”, elas sempre respondiam coisas como “Sorrir e comer uma castanha toda noite, antes de dormir”. Parecia tão simples, ser bela! Tão ao seu alcance. Mas, de vez em quando, enquanto folheava as mesmas revistas, ela parecia ouvir algumas risadas. Não sabia se vinham daquelas páginas, do espelho no banheiro ao lado ou da esperança. Ela não fazia parte daquele universo. A quem tentava enganar? Era feia.

Mas esse sentimento de feiúra ainda não era uma certeza. Era uma suspeita incômoda, como todas as suspeitas. Nada que uma roupinha nova não resolvesse. Ou uma unha feita. E lá ia ela comprar uma roupinha ou fazer as unhas. Nesses dias de tristeza, procurava socorro nas mesmas revistas femininas. Adorava ler matérias que diziam coisas como “Auto-estima: conquiste a sua!”, ou “Beleza: um estado de paz interior”. Também adorava colocar suas pernas à mostra ou os seios num decote. Decotes faziam com que ela se sentisse poderosa. Toda a sua feiúra ficava nublada com aquele par de seios ao alcance dos olhos de qualquer um.

E toda a sua feiúra nublada com aquele par de seios ao alcance dos olhos de qualquer um voltava a ficar bem nítida quando aparecia uma linda mocinha de jeans e camiseta. Inês tinha vontade de morrer. Ou matá-la. O que viesse primeiro.

Teve uma época em que resolveu virar o jogo. Passou a se vestir com camiseta e calça jeans, tudo largo, tudo muito despreocupado, tudo muito natural. Não usava mais maquiagem, não arrumava o cabelo, não fazia as unhas. Beleza para quê? Ela queria se preocupar mais com o intelecto. Era difícil, porque trabalhava como caixa de supermercado e detestava ler. Mas estava decidido: se a beleza não gostava dela, ela não ia gostar da beleza. A indiferença durou pouco. As revistas femininas continuavam lá. As famosas das entrevistas e das novelas também. Suas amigas feias continuavam tocando a campainha de sua casa, chamando-a para o salão. E Inês se cansou de viver em outro universo. Aquele seu universo particular, em que ela fingia não se importar com a beleza e fingia que, se uma fada madrinha oferecesse um corpo e um rosto dez mil vezes mais bonitos, ela recusaria, porque, afinal de contas, beleza não importava nada.

Ah, como importava! Para ela e para o mundo. Para os homens que adoravam ver mulheres bonitas, para as mulheres bonitas que adoravam ser vistas pelos homens, para as mulheres feias que adoravam tentar ficar bonitas para adorar ser vistas pelos homens.

Homens. Sempre eles. Invejava os homens. Reparava nas rodinhas masculinas: quando um homem lindo, bem acima da média, chegava, era tratado como um igual. Nenhum deles parecia sequer perceber a diferença. Estavam entretidos na conversa. Quando uma mulher linda passava, o mundo de Inês caía. Ai dessa mulher se entrasse em sua roda, então. Inês, na verdade, não era muito de roda. Geralmente, estava sozinha. Não fazia o estilo da feia bem-resolvida, que transitava bem entre as bonitas, era simpática com todos e acabava conquistando o coração de algum homem. Não conseguia. Mas também não queria fazer o estilo da feia amarga, que, querendo e não conseguindo ser bonita, odeia as mulheres bonitas. E, por fim, não queria fazer o papel da feia iludida, que passa a vida fingindo para si mesma que não é feia e tentando resolver sua feiúra sorrindo e comendo uma castanha toda noite, antes de dormir.

Numa tarde qualquer, descobriu o que queria: ser uma feia revolucionária.

(Quer dizer, o que ela queria, mesmo, era ser bonita, mas, não sendo possível, achou o tipo de feia que queria ser: uma feia revolucionária.)

Foi quando ligou para Mara.

– Aonde você quer chegar com isso? – perguntou Mara.

– Se for necessário, a uma revolução.

Estavam todas reunidas na praça principal da cidade. Era dia de assembléia geral das feias. Inês pigarreou, hábito meio feio que ela tinha, e pegou o microfone.

– Bom dia, queridas feias!

– O que tem de bom? – perguntou uma mulher no meio da multidão.

– Eu disse feias, não mal-humoradas. A assembléia dos mal-humorados foi ontem.

A mulher do meio da multidão grunhiu, mas resolveu continuar lá. Afinal, era bem feia.

– Como sabem, o tema da assembléia de hoje é: qual é o nosso inimigo?

Uma gordinha levantou a mão.

– Por que precisamos ter um inimigo?

– Todo mundo que se reúne em assembléia precisa de um inimigo – respondeu Inês, didaticamente. – Qual é o nosso? São os homens? É a mídia? São as mulheres bonitas?

Uma onda de reflexão tomou conta da platéia. Uma ou outra feia resolveu pegar o microfone e dar sua opinião. É verdade que uma delas aproveitou sua vez para pedir dicas de como disfarçar quadris largos, mas teve logo sua participação interrompida por Inês, sempre atenta. Após os discursos, chegou a hora da votação. Assim que Inês leu o resultado, uma parte das platéia comemorou, emocionada, enquanto algumas feias isoladas tentaram puxar uma vaia, sem sucesso. Mas estava decidido: era contra as mulheres bonitas que iam lutar.

– Minha vizinha Juju usa umas saias muito curtas. Meu marido não pára de ir lá para consertar a TV dela! – disse Patrícia, com um bloquinho na mão. Agora estavam listando quem eram as mulheres bonitas da cidade e o que seria exigido delas, em nome da assembléia.

– É um absurdo! – disse Mara. – Só nós, feias, podemos usar roupas curtas. Mulher bonita de minissaia é covardia.

Todas concordaram, exultantes.

– Minha prima Tamara se acha linda! Como odeio a pretensão dela! – disse uma agitada Cintia.

– Mas ela é linda?

– É. Droga. Vaias para a Tamara!

Todas vaiaram.

– Ordem! – pediu Inês. – Cintia, liste as coisas que Tamara tem que fazer para parar de exibir sua beleza. As outras façam o mesmo. As que terminarem, vão começando já a ligar para os salões de beleza. A partir de hoje, só as feias podem freqüentá-los. Mas que fique claro: as feias que não quiserem freqüentar salão algum têm total liberdade. Quem se recusar a cumprir nossas exigências, já sabem: risco de rebelião.

– Ão ão ão! Vai rolar rebelião! – algumas gritaram, se sentindo muito politizadas.

No dia seguinte, já se viam ruas mais vazias. Muitas bonitas estavam com medo de sair de casa. Algumas tinham ouvido o boato de que Joana, depois de se recusar a cortar seu lindo cabelo, teve a cabeça raspada por uma integrante da recém-formada facção radical das feias. O mesmo grupo foi responsável por invadir as casas de algumas bonitas bem-vestidas e bem-cuidadas, apreender suas roupas e jogar seus cremes no lixo. É certo que logo Inês descobriu que muitas roupas e cremes apreendidos estavam sendo vendidos no mercado negro das feias, mas as radicais foram logo repreendidas.

– Não meço dedicação à minha causa – disse uma delas, encontrada com dois quilos de sapatos em seu apartamento, escondidos dentro de bichos de pelúcia.

Os proprietários de salões ameaçaram mover um processo contra as feias, mas acabaram entrando num acordo e negociando centenas de pacotes de tratamento. Panfletos com mensagens do movimento foram distribuídos e carros de som passavam todos os dias à tardinha, pedindo a adesão da população. Conseguiram apoio de alguns segmentos, como do sindicato de lojistas, que, de olho na rentabilidade da fatia feia da população, tratou de contratar modelos feias para desfilarem com as grifes da cidade e posarem para fotos em outdoors. Alguns homens gostaram da idéia de verem suas mulheres bonitas andando menos bonitas por aí. As crianças se divertiam com as passeatas e ate ajudavam a divulgar o movimento, embora as mais bonitas temessem seu futuro.

As semanas seguintes foram de paz. As feias se alternavam numa ronda, que passava pela cidade em todas as horas do dia, verificando se as bonitas andavam se comportando. As bonitas circulavam discretamente, com roupas largas e compridas, e cabelo preso ou bem curto. Algumas preferiram engordar um pouco, para se defender de possíveis ataques das feias mais exaltadas, sempre noticiados no jornal da cidade, enquanto outras trataram logo de se exilar.

Porém, numa nova assembléia, algumas feias insatisfeitas fizeram novos discursos inflamados. Estavam menos incomodadas pelas bonitas, é verdade, que passavam tão discretamente pela rua que nem eram vistas. Mas isso era suficiente? E as novelas que passavam na TV? E as revistas escancaradas nas bancas, com mulheres maravilhosas na capa?

– É preciso mais – disse Mara, ao microfone, num tom muito sério. De reticente, no início, tinha passado a uma das feias mais engajadas. – Temos que pensar nas próximas gerações. Que futuro nossas filhas terão, se forem feias como nós?

As feias mais envolvidas com a questão, que usavam uma camiseta onde se lia “Salvem nossas crianças”, se emocionaram e bateram palmas.

Foram tomadas novas medidas. Programas televisivos nacionais com mulheres bonitas foram vetados, além de qualquer publicação em que elas apareciam. Com o apoio da prefeitura, que, por medo de uma revolta armada, acabou cedendo às pressões do movimento, mulheres bonitas que visitavam a cidade precisavam agora de um visto especial, e tinham que pagar uma multa caso não se vestissem com os uniformes que eram entregues às bonitas. Esses uniformes largos e de cor cinza faziam parte das novas medidas, e seu uso pelas mulheres bonitas era obrigatório. Agora, elas também tinham que se recolher em suas casas depois das dez da noite. Pela madrugada, as feias circulavam felizes pelas ruas e festas: a cidade era delas.

Tudo corria bem para as feias, até que elas começaram a suspeitar de um movimento contra-revolucionário. As feias que tinham primas ou irmãs bonitas foram convocadas por Inês para servirem ao grupo como espiãs, e, alguns dias depois, uma delas trouxe a certeza: as bonitas estavam fazendo uma conspiração. Júlia, a feia que, seguindo uma prima bonita, viu que ela espalhava a conspiração pela cidade, tentando convencer o povo com suas idéias de liberdade, foi imediatamente condecorada a feia-mor. As comemorações, no entanto, ficariam para mais tarde: era preciso conter a desordem.

Foram dias violentos. As bonitas, que agora tentavam circular sem uniforme, tinham seus cabelos arrancados e ganhavam hematomas feios pelo corpo. Várias foram presas, assim como donos de salões obscuros que aceitavam atendê-las – apliques de cabelo estavam valendo uma fortuna. Ao fim de uma semana, porém, Inês aceitou falar com uma representante das bonitas, eleita por pelas próprias bonitas numa assembléia secreta, para ouvir suas reivindicações. Talvez estivesse disposta a conceder uma ou outra coisa, como deixar o toque de recolher para mais tarde, não mais que isso. No entanto, quando Inês se viu sozinha com Mariana, percebeu logo que ela não era apenas um rostinho bonito. Mariana trazia ideias muito ousadas, debatidas ao longo de várias reuniões com as bonitas, e, após lançar mão de argumentos que mexeram emocionalmente com Inês, propôs uma aliança. Inês imaginou a confusão que daria se, como líder do movimento, acatasse a sua ideia, e deixou para resolver o assunto em uma reunião fechada com as cabeças do movimento das feias.

– Uma aliança entre as feias e as bonitas? Qual é o sentido disso? – perguntou Mara, franzindo bastante as sobrancelhas, o que a deixava ainda mais feia.

– Foi o que pensei, logo de cara – disse Inês. – Mas pense comigo. Apesar de todas as mudanças, ainda não estamos lidando bem com nossa feiúra. Da mesma forma que antes, nos sentimos pressionadas a ser bonitas.

– É verdade. Continuo quase chorando ao me ver no espelho – respondeu Mara.

– E, se uma fada aparecesse, eu queria ser transformada em bonita agora! – disse Ingrid, uma das feias condecoradas recentemente por maus tratos a bonitas. – Que inimigo é esse, a quem queremos imitar? Se elas são más, por que queremos ser como elas?

Após chegarem a um consenso, as líderes convocaram uma assembléia para discutir os novos rumos do movimento. Lá, muitas feias se sentiram traídas. As mais sensíveis choraram, enquanto a facção radical logo decidiu se separar das demais, formando um subgrupo ortodoxo. Após algumas horas de discussão, porém, toda a multidão estava disposta a votar pelo reposicionamento do grupo.

– Lembrem-se: elegeremos um novo inimigo, e nesse caso as bonitas poderão ser nossas aliadas, ou continuaremos lutando contra as bonitas? – disse Inês. – É importante que todas as feias concordem com o ganhador. Somos feias, mas somos organizadas!

Uma grande agitação tomou conta da multidão, que, orgulhosa, formou logo em seguida uma fila bem retilínea. Horas depois, terminada a contagem dos votos, Inês preparava-se para anunciar o resultado, que já sabia desde o início: não era à toa de que as cabeças do movimento tinham oferecido, no dia anterior, às feiosas guardiãs Cecília e Daniela o peso de cada uma delas em chocolate, caso concordassem em depositar na urna, alguns minutos antes da votação, alguns papeizinhos que não fariam mal a ninguém, além de darem fim a vários papeis ao recebê-los.

– Pela diferença de apenas três votos, eu declaro que nosso novo inimigo são os homens – anunciou Inês, por fim.

Muitas feias ficarem perplexas, enquanto outras comemoraram. Algumas tinham sido separadas de suas amigas, irmãs e primas bonitas, e não viam a hora de se juntar a elas novamente. No entanto, a facção radical, que era a grande preocupação de Inês no momento, não deu trabalho algum: no fundo, as mulheres daquele grupo queriam só um inimigo bem claro, qualquer um, e já confabulavam as medidas que adotariam para aterrorizar a vida dos homens.

– Não poderão mexer com as mulheres na rua! – gritou uma feia. – Nem feia, nem bonita!

– Não poderão falar do nosso físico, bem ou mal, em rodinhas masculinas! Multa! – gritou outra.

– Não poderão dar privilégios de nenhuma espécie às mulheres bonitas! Cadeia! – berrou outra.

Em nova assembléia, fecharam a lista de reivindicações aos homens, e, em seguida, após avisarem a prefeitura, anunciaram em praça pública que as bonitas estavam livres, desde que aderissem à causa contra os homens. Foi um dia histórico na cidade: usando cabelo solto e queimando seus uniformes, as bonitas desfilaram na rua até a madrugada, cantando, bebendo e abraçando as feias.

No dia seguinte, a ronda, agora formada por feias e bonitas, passava pela cidade vigiando os homens: tinham que emagrecer, para ficarem menos fortes. Tinham que usar salto alto, para impossibilitar que andassem rápido. Eram obrigados a usar saias curtas e calças justas, para dificultar seus movimentos.

Com o passar do tempo, a lista de exigências das mulheres foi aumentando. Os homens, agora, precisavam falar baixo e rir com cautela. Não podiam se relacionar com muitas mulheres, embora elas pudessem ficar com quem bem entendessem. Tinham liberdade para estudar e trabalhar, mas essas atividades não eram estimuladas: acima de tudo, a missão deles era ficar sempre bonitos e arrumados, para que elas os admirassem à vontade.

– O contratado é o Paulo – disse Marta, de pé em frente à sua sala, num prédio comercial da cidade, a uma série de homens sentados. Já fazia alguns meses que as mulheres tinham se unido contra os homens.

– Isso é um absurdo! Só porque ele é o mais bonito?

– E o meu cérebro, não conta? – perguntou um deles, que tinha feito pós-graduação no exterior.

– Mal-amados! – acusou Paulo, entrando todo prosa na sala de Marta, após dar uma piscadinha para ela.

Em outro canto da cidade, Cleide pedia o divórcio.

– Você está com um cara com metade da minha idade, que eu sei! – gritou seu marido, Jorge, arrasado.

– A culpa é sua, que não se cuida, não está nada atraente! Mas não se preocupe, não vou deixar que lhe falte nada. Agora me deixe sozinha, por favor.

Depois de alguns anos, só uma pequena parte das mulheres ainda se preocupava com beleza. A grande maioria queria roupas mais funcionais do que sensuais, ao contrário dos homens. A rivalidade entre feias e bonitas era coisa do passado, enquanto a competitividade entre os homens só crescia. Proibidos de usarem sua força física, eles acabaram por esquecê-la, e as mulheres se orgulhavam de pertencerem ao sexo forte. É verdade que os homens custaram a se acostumar com seu novo papel, mas, ao final de duas décadas, vários já corriam desesperados da chuva, para não molhar o cabelo, enquanto outros se recusavam a sair de casa sem pelo menos um pouco de pó compacto.

– Nada muito exagerado – deixou claro a um amigo, sentado ao seu lado no salão de beleza, enquanto conversavam sobre maquiagem e relacionamentos amorosos.

O movimento estava consolidado. Sentada na sua linda poltrona, assistindo a uma novela produzida pela emissora local – não gostava de novelas, mas não podia deixar de ver aquele capítulo, em que a mocinha, maltrapilha e sem um dente, finalmente regressaria de sua longa expedição, reencontrando o lindo e charmoso mocinho, que havia chorado por anos à sua espera –, Inês, já velha, orgulhava-se de sua vida de luta. Mas, no intervalo da novela, ao ver que o marido chorava num canto, ela se comoveu.

– O que você tem?

– Nada.

– Diga, não posso adivinhar. O que você tem?

– Nada, nada!

E ele se trancou no banheiro.

Inês passou a madrugada pensativa, e, logo na manhã do dia seguinte resolveu, depois de anos, convocar uma nova assembléia de mulheres. Após muita conversa e alguma discussão, elas resolveram fazer uma votação para decidir se os homens continuariam sendo seus inimigos ou não.

Não houve fraude. E, com duzentos votos de diferença, a decisão estava tomada: os homens não eram mais inimigos das mulheres.

O dia foi de festa. Homens e mulheres se abraçaram, riram e dançaram até a madrugada. Os que tinham se adaptado ao uso do salto ostentavam alegremente seus pares, e os que tinham saudade dos seus confortáveis tênis ficaram descalços, ansiosos para voltar a usá-los. Nem quando uma chuva forte começou a cair, os habitantes voltaram para suas casas: era dia de comemoração em Jutibaia.

No entanto, lá pelas três da madrugada, quando Inês e seu marido se abraçavam na rua já quase vazia, ela percebeu. A luta não estava ganha. Ainda havia um inimigo a ser derrotado. Ela não sabia quem, mas sentia. Era alguém maior que eles. Alguém que eles não podiam ver, mas que estava lá o tempo todo. Como não tinha percebido isso antes? Mas como lutar contra ele?

E Inês continuou abraçada a seu marido, olhando as luzes da cidade se apagando.
























By Liliane Prata

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