sábado, abril 25, 2009

Eu falo dicífil

Em 1949, Millôr Fernandes lançou o livro “Tempo e contratempo”, sob pseudônimo de Emannuel Vão Gôgo. Numa das crônicas deste livro, chamada “Provérbios prolixizados”, Millôr reescreveu de forma erudita dez ditados populares.
Achei muito legal a idéia de Millôr.

De unidade de cereal em unidade de cereal, a ave de crista carnuda e asas curtas e largas da família das galináceas abarrota a bolsa que existe nessa espécie por uma dilatação do esôfago e na qual os alimentos permanecem algum tempo antes de passarem à moela
De grão em grão, a galinha enche o papo.

A substância insípida, inodora e incolor que já se foi não é mais capaz de comunicar movimento ao engenho de triturar cereais
Águas passadas não movem moinhos

Gostei tanto disso que resolvi pesquisar no Google para ver se outros provérbios já tinham sido prolixizados. Encontrei apenas uns:

Orifício circular corrugado, localizado na região inferior lombar de um cidadão em alto estado etílico, deixa de estar em consonância conforme os ditames vigentes na sociedade e conforme as leis de propriedade vigente
Cu de bêbado não tem dono

Sequer considerar a possibilidade da fêmea bovina expirar fortes contrações laringo-bucais
Nem que a vaca tussa

quinta-feira, abril 16, 2009

Expressões...

 expressão “greve de fome” não faz sentido porque greve refere-se a ausência, e fome é a sensação de falta de comida, portanto, “greve de fome” é a ausência da sensação de falta de comida, ou seja, barriga cheia.
Seguindo a lógica, “risco de vida” também não faz sentido, porque quando você pôe sua vida em risco, é um “risco de morte”.
Portanto, uma greve de fome gera um risco de vida. E uma greve de comida gera um risco de morte.
Ahhh.. e “remédio para gripe” deveria ser trocado para “remédio contra gripe”.
Estou me empolgando…
Quando uma rua está com excesso de carros, não deveria chamar “tráfego” já que não trafega, assim como não deveria chamar de “trânsito” já que não transita. Muito menos chamar de “a hora do movimento” um momento em que todos os carros estão parados.
Tá bom de bobagens que eu vou tomar minha cartela de Benflorgin (meu remédio para alucinação)…

quarta-feira, abril 15, 2009

E se eu não tivesse ido?

Dia desses, uma amiga estava reclamando do namorado dela. Que ela não sabia se o amava mais, que ele tinha virado um chato etc. A dúvida era: terminar ou não? Até aí, tudo bem. Esses desabafos pé-término estão super-inclusos no pacote amigos. Mas aí ela soltou a seguinte frase:
"Se eu não tivesse ido àquele churrasco, eu nunca teria conhecido meu namorado e não estaria nessa situação agora".
Ai, ai. Acabou que desencanamos de falar sobre o namoro dela e passamos a discutir sobre esse se. Eu sou contra e, até onde eu sabia, ela também.
Explico. Sou contra divagações do tipo: "E se eu não tivesse saído aquele dia?", "E se eu tivesse nascido em outra família?" etc. Bem, às vezes a gente se pergunta esse tipo de coisas mesmo. Mas por três segundos e pronto, sabe. O problema é entrar nessas perguntas e não sair mais.
Uma vez que você toma uma decisão – ou tomam por você, no caso de te darem um pé na bunda, por exemplo - , sua vida passa a seguir aquele rumo. Uma versão sua, vivendo naquela outra direção – em que o namoro continua, por exemplo – não existe. Desencana. Afinal, vamos ser práticas: não existem dimensões paralelas na vida. Quer dizer, pode até ser que exista, em filmes de ficção científica e nos cálculos de alguns físicos por aí. Mas não fazem muita diferença no nosso dia-a-dia, de modo que a gente vive como se elas não existissem, certo? Além disso, nunca gostei muito de ficção científica, e física era minha pior matéria no colégio.
Sem contar que você nunca sabe o que teria acontecido se você não tivesse ido àquela festa, se você não tivesse ido à cada da sua tia, se você não tivesse comido mexerica no café - da - manhã. NUNCA. Você só conhece a sua vida como ela é, com as decisões que você tomou e tomaram por você. Podemos ficar tentadas a falar coisas como “eu seria muito mais feliz hoje se tivesse nascido com a cara e o corpo da fulana” ou “tudo estaria certo na minha vida hoje se eu não tivesse brigado com minha amiga sete aos atrás”. Mas o caso é que simplesmente não tem como saber se isso é verdade. Se não tem como saber, para que especular a respeito?
Certo, especular pode ser muito divertido. Se não fosse, a gente não falaria sobre ETs, vida após a morte e vários outros assuntos dinâmicos e interessantes. Eu, pelo menos, adoro levantar mil hipóteses sobre esses temas. Também gosto de imaginar situações hipotéticas, como diálogos que não acontecem, situações que não ocorreram e tal. O problema é ficar remoendo situações passadas, em vez de tentar agir no presente. Culpar atos seus que não podem mais ser alterados. Sabe aquela coisa de “ai, por que eu saí de casa, por quê?”. Tipo, você saiu de casa. Trabalhemos nesta dimensão agora. Eu sei, estou sendo muito prática. Mas veja bem: no terceiro parágrafo, eu disse “Vamos ser práticas...” Não enganei você!

 
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