Reclamamos muito sem pensar no passado.
A cada momento que o olho brilha graças aos avanços da tecnologia
moderna, dois resmungos competem com o deslumbre: um deles lamenta que
as coisas não são tão boas quanto no passado, o outro se inquieta com as
falhas do recém-chegado. Muito já foi dito e escrito sobre a natureza
insatisfeita do ser humano, mas vivemos numa época de ouro para a
humanidade. Ela pode não ser a mais incrível da história, mas é, sem
dúvida, aquela em que o maior número de pessoas vive bem e pode fazer o
que quer. Mais do que isso: elas podem fazer coisas que nem sequer
imaginariam fazer apenas alguns anos antes.
E nem estou falando das virtudes sempre exaltadas pela pauta do Link. Me refiro apenas a fatos triviais.
Estamos em contato com amigos e conhecidos o tempo todo. Hoje
conversamos em vídeo pelo celular. É possível fazer compras, pagar
contas e trabalhar ao mesmo tempo, sem que uma ação atrapalhe a outra. A
maioria das perguntas que você pode fazer – tirando as existenciais –
pode ser respondida em alguns cliques. Só o clichê do “computador de
bolso” propagado na era do smartphone já justificaria tanto deslumbre:
seu celular é um localizador de GPS, um tocador de mídia (música,
vídeos, fotos), uma câmera que filma e tira fotos, um dispositivo de
acesso à internet, um videogame portátil.
Mas, enquanto a foto não carrega, o mapa não aparece, o vídeo não
sobe ou o game muda de fase, reclamamos da conexão, do aparelho, da
rede, do software. Isso sem citar aqueles que esbravejam “antigamente é
que era bom” e se esquecem das filas no banco, do tempo perdido para se
achar um lugar, de impostos feitos em planilhas de papel, das as poucas
fontes para descobrir música nova, como rádio e lojas de disco.
Sempre que vejo as pessoas confrontadas nesse dilema egoísta, minha
memória me leva inevitavelmente a um texto, repetido em apresentações ao
vivo e programas de TV do comediante norte-americano Louis C.K., que
ficou conhecido com o título que usei nesta coluna.
“Tudo é incrível e ninguém está feliz”, começava. “Em minha vida, as
mudanças que aconteceram no mundo foram incríveis. Quando eu era
criança, o telefone em casa era de disco. Você tinha de ir onde ele
estava e tinha que discá-lo. Você já parou para pensar como era
primitivo? Você está produzindo faíscas em um telefone!”
Ele continuava falando do saudoso passado de que uns ainda fingem
sentir saudade: “Se você quisesse dinheiro, você tinha de ir ao banco,
que só ficava aberto por algumas horas. Você tinha de pegar uma fila,
escrever um cheque para você mesmo feito um idiota e quando o dinheiro
acabava você não tinha mais o que fazer. Acabou.”
“Estamos vivendo num mundo incrível e ele está sendo desperdiçado na
geração mais rasa de idiotas mimados que não se importam porque é assim
que as coisas são agora”, reclamava. “Estava num avião outro dia e tinha
internet. E isso é o avanço mais recente que eu conheço: internet
rápida no avião. Estou ali no avião e posso pegar um laptop, entrar na
internet, que é rápida o suficiente para assistir a vídeos no YouTube. É
incrível. E aí de repente a conexão falha, alguém da companhia aérea
pede desculpas pela internet não estar funcionando e um cara do meu lado
começa a reclamar que isso é uma merda!”
E conclui dizendo que nem sequer percebemos a maravilha que é voar,
essa tecnologia de pouco mais de um século. “Alguém reclama que teve de
ficar esperando a decolagem por 40 minutos. É mesmo?”, pergunta Louie.
“E o que aconteceu logo em seguida? Você voou pelos céus como um
pássaro? Você atravessou as nuvens, algo que era impossível? Você teve o
prazer de participar do milagre do voo humano e depois pousou
maciamente sobre pneus enormes que você nem consegue imaginar como foram
parar o céu? Você está sentado em uma cadeira no céu. Você é um mito
grego neste exato momento.”
Reclamamos muito e temos pouca consciência do nosso próprio contexto –
e isso não diz respeito apenas à tecnologia. Mas graças à ela isso tem
mudado.
Por Alexandre Matias

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